A Amazônia, o Tio Sam e a China

Por Raphael Lobo Duarte Batista Teixeira, para Desacato.info.*

Texto revisado por Elissandro dos Santos Santana.

Resultados de estudos elaborados pela Euromonitor International demonstram que o valor médio pago pela força de trabalho na China já supera o valor pago no Brasil e no México e se aproxima rapidamente de Portugal e Grécia [1].

De 1990 a 2008, a China cresceu bastante. Em 2008, ano da crise econômica mundial, com o colapso da economia, reduziu-se o consumo na Europa e nos Estados Unidos, o que acarretou a redução nas exportações chinesas. Com a queda das exportações devido à crise econômica mundial, foi necessário estimular o consumo interno para movimentar a economia nacional para não frear o crescimento da nação chinesa.

As altas taxas de crescimento fundamentalmente baseadas em investimento para a exportação não eram mais sustentáveis. O partido comunista chinês precisou, então, acionar o outro dispositivo da economia, o consumo.

Acerca da posição assumida pela China para enfrentar a crise, o professor Roberto Dumas (2015) afirma que a decisão tomada pela potência chinesa representou uma política estratégica de Estado. Segundo ele, com o transatlântico mudando de rota haverá uma gradual expansão do gigantesco mercado interno Chinês, e para isso, torna-se necessária uma elevação dos salários [2].

Segundo dados de julho de 2013 do Banco Mundial, a população chinesa é composta de 1,357 bilhões de habitantes e, desta forma, com um número tão expressivo, é fundamental nos recordarmos de Celso Furtado. Para ele, um dos maiores mitos das Ciências Sociais foi o de que o desenvolvimento econômico, tal como vem sendo praticado, pode ser universalizado. Esse mito do pregresso esbarra em uma variável fundamental, haveria o fornecimento de recursos naturais em escala planetária?

Em relação ao caso chinês, especificamente, a sistemática expansão de seu mercado interno tende a pressionar a busca por produtos considerados estratégicos, não renováveis, produzidos fora do país. Daí, chegamos à Amazônia e, consequentemente, ao Tio Sam.

Quando terminou a Guerra Fria (1947 – 1991), rapidamente os Estados Unidos introduziram uma nova política de intervenção militar na América Latina. Nesse ínterim, é importante salientar que se antes o combate ao comunismo era a justificativa para violar a soberania dos países, atualmente, a violação se faz através do discurso do combate às drogas.

Coincidência ou não, o fato é que o Tio Sam conta com 13 bases militares na América do sul; nove delas estão na Amazônia. Ter o Sul do continente como depósito de recursos naturais táticos (nióbio, água, petróleo e etc..) é algo que podemos buscar desde a Doutrina Monroe (1823). Entretanto, um espectro ronda a região – o espectro Chinês [3].

Para uma noção mais ampla desse fenômeno, o Banco de Desenvolvimento da China e o Banco Chinês de Exportações e Importações, ambos estatais, realizaram, em 2015, a quantia de 21,2 bilhões de dólares em investimentos na América do Sul.

Usando como comparação, se somados os empréstimos feitos pelo Banco Mundial (US$ 8,2 bilhões) e do Banco Interamericano de Desenvolvimento (US$ 11,6 bilhões) chegaremos a um valor de US$ 19,8 bilhões [4].

Contudo, o que queremos chamar a atenção nesse artigo é para a hipótese que pode se concretizar em 2020, a transferência da terceira maior empresa privada do mundo, A Vale, aos chineses [5].

A antiga Companhia Vale do Rio Doce, criada por Getúlio Vargas em 1942, 65 anos como estatal e detentora da Serra de Carajás na Amazônia (os chineses querem a mina) passará, em um futuro próximo, ao controle de Pequim.

A resposta do Tio Sam à presença estrangeira em seus domínios é algo que precisamos acompanhar bem de perto.

Referências

 

[1] HINESE WAGES NOW HIGHER THAN IN BRAZIL, ARGENTINA AND MEXICO. ?Londres, Reino Unido, 26 fev. 2017. Disponível em: <https://www.ft.com/content/f4a260e6-f75a-11e6-bd4e-68d53499ed71>. Acesso em: 28 fev. 2017.

[2] DAMAS, Roberto Dumas. Economia Chinesa: Transformações, rumos e necessidade de rebalanceamento do modelo econômico da China. São Paulo: Saint Paul, 2014.

[3] AMÉRICA LATINA CERCADA POR ESTADOS UNIDOS ATRAVÉS DE SUAS 76 BASES MILITARES. Buenos Aires, 12 jun. 2013. Disponível em: <http://operamundi.uol.com.br/dialogosdosul/america-latina-cercada-por-estados-unidos-a-traves-de-sus-76-bases-militares/12062013/>. Acesso em: 22 fev. 2017.

[4] CHINA NA AMÉRICA DO SUL. Belém, 24 fev. 2017. Disponível em: <https://lucioflaviopinto.wordpress.com/2017/02/24/a-china-na-america-do-sul/>. Acesso em: 27 fev. 2017.

[5] VALE VAI ACABAR. Belém, 22 fev. 2017. Disponível em: <https://lucioflaviopinto.wordpress.com/2017/02/22/a-vale-vai-acabar-2/>. Acesso em: 26 fev. 2017.

* Membro do Grupo de Pesquisa América Latina: Integração e Desenvolvimento – GPAID, da Universidade Federal da Integração Latino-americana

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