80 tiros Clarice, 80!

Imagem: Anderson Awvas

Por James Ratiere, para Desacato. info.

Cara C. L.

O que dizer a você? Tenho tido tantas inspirações e pirações, neste caso, em nossa época, mais pirações.

Não queria utilizar de nosso contato sobrenatural para te dizer tais coisas. Mas preciso desabafar, porque tá triste minha querida, muito triste.

Lembro-me do dia em que você abriu meus olhos com aquela frase “Estou morta, quando não escrevo estou morta” e em mim gritou esta dor de estar morto quando essas linhas estão em branco.

E o pior, preenchê-la de dor, indignação, como aquela sua no conto sobre o Mineirinho, que a cada tiro você interpretou como algo que nos atingisse, (porque nos atinge, porque somos nós ali puxando o gatilho), mas desta vez se foi longe demais.

Nos deparamos com 80 tiros Clarice, 80 diretos no carro de uma família preta, uma família desarmada e “por um engano” policial perdeu dois integrantes. Mineirinho era um “fora da lei” não que isso justifique tal violência, mas essa família era apenas preta, tinha apenas a cor de pele dos “padrões” que ainda repetimos como “perfil de marginais” e essas vidas são descartadas, tiradas de nós, nos dando medo de andar na rua. Mineirinho levou 13 tiros, e você disse que apenas o 13° te acordou.

Nós infelizmente nunca dormimos, nosso tempo vai degringolando e nos arrastando para um looping sem fim de violência, marginalização e exclusão daqueles que não tem posses, ou mesmo não é tradicional aos padrões. Hoje somos desgovernados, em todos os sentidos da palavra, e eu peço às vezes minha cara para tornar-me sonso outra vez, porque já não sei mais até quando as estruturas mentais vão aguentar com tanta coisa acontecendo. Nosso desgoverno é tanto Clarice que tira a culpa dos culpados e se dói por um dito preconceituoso machista e racista tal como o representante maior desse país.

Se você se horrorizava pelas coisas que aconteciam em sua época e tinha alguma esperança no futuro, desculpe te decepcionar, infelizmente parece que retornamos piores do que antes.

Daqui vai meu abraço triste, que teus textos continuem iluminando nossas epifanias.

Com amor J. R.

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