À memória dos trabalhadores

Por Magali Moser.

A passagem de mais um Dia do Trabalhador remete à reflexão sobre a origem da data, vista por muitos como apenas mais um feriado nacional destinado ao descanso e ao lazer. Este ano, por ter sido num domingo, o dia pode ter passado despercebido pela maioria, não fossem as comemorações, como as promovidas pela CUT em São Paulo e pelas prefeituras, assim como a de Blumenau que levou 25 mil pessoas para o Parque Ramiro Ruediger para o que chamou de “Dia de Lazer – Festa do Trabalhador”, com shows e programações festivas. Transformar a data em festa ofusca a história e as lutas que há por trás da instituição do dia Primeiro de Maio e impede a conscientização sobre a capacidade de organização dos trabalhadores.
A chacina ocorrida na cidade americana de Chicago, em 1886, não é lembrada pela mídia e tampouco nas atividades alusivas ao primeiro de maio. Nem mesmo lá, a que se originou a data, há preservação da memória sobre o dia. Como lembra o jornalista uruguaio Eduardo Galeano, notabilizado pelo livro As Veias Abertas da América Latina: “Ao chegar ao bairro de Heymarket, peço aos meus amigos que me mostrem o lugar onde foram enforcados, em 1886, aqueles operários que o mundo inteiro saúda a cada Primeiro de Maio.- Deve ser por aqui – me dizem. Mas ninguém sabe. Não foi erguida nenhuma estátua em memória dos mártires de Chicago nem na cidade de Chicago. Nem estátua, nem monolito, nem placa de bronze, nem nada. O Primeiro de Maio é o único dia verdadeiramente universal da humanidade inteira, o único dia no qual coincidem todas as histórias e todas as geografias, todas as línguas e as religiões e as culturas do mundo; mas nos Estados Unidos o primeiro de maio é um dia como qualquer outro. Nesse dia, as pessoas trabalham normalmente, e ninguém, ou quase ninguém, recorda que os direitos da classe operária não brotaram do vento, ou da mão de Deus.”
A luta por melhores condições de vida que movia trabalhadores submetidos a até 13 horas de trabalho diário por uma jornada de oito horas, na mobilização conhecida como Revolta de Heymarket, foi apagada ao longo dos anos. A resistência que unia aqueles trabalhadores é a mesma que levou 24 mil operários da construção civil a cruzarem os braços, há algumas semanas, na Refinaria Abreu e Lima, no Complexo Industrial Portuário de Suape, a 10 quilômetros do paraíso turístico de Porto de Galinhas, em Pernambuco. Os trabalhadores entraram em greve por lutar por melhores condições de trabalho e alojamento. Além de reajuste salarial, brigavam por um aumento no vale-alimentação de R$ 80,00 para R$ 180,00. Como relembra o jornalista Vito Giannotti, Fátima Bernardes, Boris Casoy, Alexandre Garcia e toda a grande mídia protestava: “trabalhadores sem qualificação profissional reivindicam mais de 100% de vale-alimentação. Onde esse País vai parar?!”
Todos os direitos obtidos pelos trabalhadores foram resultado de um processo de lutas e mobilizações. O papel dos trabalhadores na construção do País precisa ser lembrado nas atividades do Primeiro de Maio. Aqueles que dão seu sangue para o País crescer e estão submetidos a salários irrisórios, jornadas exaustivas de trabalho, viagens desgastantes até os locais de trabalho, acordando cedo, dormindo e se alimentando mal, são os que empurram o País para frente. Quem constrói as riquezas são os trabalhadores, embora não usufruam das riquezas produzidas por eles.

Foto histórica de Ricardo Alves.

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