Caio Fernando me entenderia

Publicado em: 16/01/2011 às 20:00
Caio Fernando me entenderia


Por Luciane Recieri.

Onde você estava quando chorei litros?
Não sei.
Procuro em todos os cantos da memória algo pra me justificar, mas não sei, tampouco encontro algo nesta desordem em que me encontro
Sento-me no colchão ao seu lado, o quarto está vazio. Seguro suas mãos. O esmalte para aquela ocasião que não sei qual seria já estava roído. Ela chora e tenta sintonizar alguma estação, levanta o radinho, mas as ondas se confundem e se ouve apenas aquele chiadinho típico de espaço sideral.
A rua está silenciosa e de quando em quando um pneu rola pegajoso no asfalto.
Não sei o que dizer, tento cantar alguma coisa que ela gosta, depois tento iniciar outra conversa, mas talvez pela ausência de diálogos eles aparecem sem travessões e fica aquela coisa dita às paredes, porque nosso olhar está grudado no quarto recém azul.
Eu querendo ir. Seria quase desistir do maior amor do mundo, mas lá fora quase frio, quase manhã, sono atrasado. A vida adiada, quase morte esta vida adiada. Entre minhas mãos, as dela.
De repente ela me olha e as perguntas saem sem interrogações:
– Posso ser feliz. (?)
– Como faz pra vida ficar boa. (?)
– Faz a vida ficar boa.(?)
O que eu faço com ela? Estava conversando com a aridez do igual. Mesmo com o triplo de sua idade sofria do mesmo mal. Tento tapeá-la e digo que a vida é encantamento.
– Quebrado o espelho, sete anos de azar.
Ela duvida de mim e olha pela fresta da janela e me diz sem me olhar.
– Dói aqui.
Eu me deito no colchão e coloco a mão no mesmo lado que dói nela.
Ela dispara teorias.
E se toda vida durasse apenas 5 anos? E se tudo fosse menos burocrático? E se vivêssemos o maior amor do mundo em dois dias e em quinze minutos se recuperasse de tudo?
Mas não é bem assim. Quando era bem pequena e escalavrava os joelhos ouvia minha mãe dizer que quando casar iria me curar.
E se não me casasse? E se demorasse? A vida toda a me doer os joelhos e o pior que casar não sara.
Não havia nada mais a dizer. Ela descobrira o tempero, agora tudo era empapado e frio.
A menina enxuga os olhos e tenta se refazer sem os meus cuidados.
Abre o livro ao acaso e tenta se acalmar. Olho-a por detrás da capa… Ovelhas negras com um R em destaque. Nada mais a lhe dizer. Ela me adivinha e diz:
– Porque ele me entende.

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