5 dicas para homens que querem discutir sobre o aborto

5 dicas para homens que querem discutir sobre o aborto

Por Helena Vitorino.

O debate sobre descriminalizar a prática de aborto vem sendo discutido em todas as esferas sociais, seja nas redes, na mesa do jantar ou na sala de reunião, e tem colocado homens e mulheres diante de um problema de saúde pública no Brasil. Mesmo sendo mais pesada, impactante e dolorosa para as mulheres a decisão do aborto, muitos homens têm integrado a discussão, o que é positivo para incrementar o debate. Mas, dentro deste universo complexo, que varia desde a condição social, física e psicológica da mulher, perpassa por clínicas, clandestinidade, agulhas de tricô e condenação penal, os homens estão preparados para discutir de igual para igual as necessidades e consequências da descriminalização do aborto?

Entendemos que, a partir do momento que os homens querem integrar a questão, eles devem também integrar as responsabilidades e dividir as consequências da concepção, nivelando fatos que hoje, se analisados, estão em alarmante discrepância. Em outras palavras, não basta dizer se você, homem, é a favor ou contra o aborto caso você não esteja considerando outros fatores. Por isso, elencamos algumas dicas para que essa discussão seja mais saudável e para que os homens possam participar do debate com mais responsabilidade sobre o assunto.

Dividir os custos de tratamentos anticoncepcionais e pós-conceptivos

Os custos de métodos anticoncepcionais são culturalmente atribuídos como responsabilidade única de quem carrega um útero. O que é mais comum entre os casais que não desejam ter filhos é que a mulher pague integralmente o valor da pílula anticoncepcional, caso seja este o método que ela utiliza. O benefício trazido pelo medicamento, a não concepção, impacta a vida de ambos, mas o custo deste benefício é pago exclusivamente pela mulher. Mas mesmo que você, homem, venha a dividir o valor da pílula, isso é suficiente? Não. Para tomar pílula, a mulher deverá ao mínimo visitar um ginecologista antes. Você divide o valor da consulta? Se a pílula causar algum problema à saúde de sua parceira, você dividirá os custos dos exames? Se a pílula não for a melhor opção para sua parceira, você dividirá o valor dos adesivos, implante de DIU, anticoncepcional injetável, anel vaginal?

Um dos requisitos para que a concepção seja tratada como responsabilidade de ambos é a atribuir aos dois tudo que a envolve.

Não insistir para que a relação sexual ocorra de forma desprotegida

Não dá pra ser hipócrita e dizer que isso não acontece. Seja por comodidade, para dar mais prazer ou por qualquer outro motivo, é constante a reclamação entre mulheres sobre insistências do parceiro para transar sem camisinha. E não, as mulheres não devem aceitar esse pedido se não tiverem vontade, da mesma forma que os homens não devem insistir nesse pedido se a mulher não estiver disposta. É sempre válido lembrar que a relação sexual protegida não evita apenas uma gravidez indesejada, mas também diversas doenças sexualmente transmissíveis, como a AIDS e Sífilis.

Conversar com colegas que estão persuadindo a parceira a abortar, mesmo contra sua vontade.

Aqui também não vale ser hipócrita. Um fato muitas vezes jogado pra debaixo do tapete é a frequência com que o pedido de aborto vem do homem, uma insistência para que a mulher interrompa a gravidez mesmo não sendo da vontade dela. Engana-se quem acha que as clínicas abortivas estão abarrotadas de mulheres arrependidíssimas por si próprias. Quando o Coletivo Jane, uma rede que facilitava abortos clandestinamente nos Estados Unidos, foi criado na década de 1970, eram esmagador o número de mulheres casadas que buscavam desesperadamente os serviços abortivos a pedido dos maridos. Se você é homem e conhece alguém que esteja persuadindo a parceira a abortar, por razões próprias que não sejam discutidas e avaliadas pelos dois, interfira. Os homens podem até alegar que ali está 50% do seu material genético, mas não devem esquecer que ali também há 100% de um corpo físico que não envolve o dele. Logo, um feto é 50% homem, mas uma gestação é 150% mulher, e por exigir muito mais dela do que dele. Uma gravidez só deve ser interrompida se for por decisão final da mulher, e não do homem.

Apoiar o ensino da educação sexual de forma preventiva

É hora de aceitar que os recursos de prevenção à gravidez não são acessíveis de forma homogênea a todas as pessoas no mundo. Ninguém nasce sabendo como se prevenir, isso é uma coisa que a gente aprende. E o ensino a educação sexual deve ser claro e objetivo, seja no âmbito escolar e na família, uma vez que nossas crianças já estão sendo educadas sexualmente sem que percebamos: seja na novela ou na tela do smartphone, por exemplo, a nudez está chegando às crianças com a velocidade da informação na era digital. Não dá pra fingir que isso não acontece, e não dá pra tampar os olhos achando que “o meu filho não será atingido”. É preciso educar para que o imprevisto não bata à porta, e para que o acesso à informação e prevenção seja disseminado à todos.

Praticar a empatia

Lembre-se: você é homem e não engravida ?. Isso faz com que você seja incapaz de opinar? Não. Isso faz com que você esteja numa posição de observância, e que qualquer opinião sua, para ser levada a sério, deve ser emitida depois de um período em que você se coloca no lugar do outro. Esse é o exercício de empatia, e não deve ser praticado unilateralmente pelos homens: mulheres que nunca fizeram aborto devem ser empáticas às que fizeram; mulheres que não são mães devem ser empáticas às que são; mulheres que criam os filhos ao lado dos parceiros devem ser empáticas às mães-solo. A empatia é um exercício mútuo e deve ser praticada diariamente. A questão do aborto é extremamente delicada porque sua ilegalidade vem matando milhares de mulheres em todo o Brasil e se tornou uma questão de saúde pública.

Por isso, ao emitir suas opiniões, tente se lembrar de que nenhum homem nunca morreu por conta do aborto, enquanto milhares de mulheres sangram até morte por falta de condições básicas.

Fonte: LadoM

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