Crônica breve para uma companheira

Por Raul Fitipaldi.

Dias atrás, uma pessoa dessas que confunde janelas com portas, quis atacar este veículo de comunicação pensando que nós éramos tu, quando ao contrário tu és nós. Matéria muito delicada para a determinista criatura, mais uma das que abundam anonimamente na síndrome de síndico. Certamente, por pequeno, não importa quem seja nem que venha a não ser. Aqueles que representa um dia o esquecerão. É circunstante, momento apenas, um lívido detalhe nestes anos, tantos e doce-amargos, da luta pela comunicação independente, soberana. Não importam nem seu nome nem onde arrebanha histórias.

Quando atravessamos as ruas, com os punhos alçados, com a indignação que almejamos faça ninho no peito dos estudantes e trabalhadores que ainda não costumam indignar-se, como fizemos com 20, 30, 40, 50 + 1 (+7), o grito não está dirigido aos mínimos do poder. É flecha dirigida aos impérios, ao sistema que reduz o trabalhador em coisa, o estudante em carregador de pianos. No entanto, companheira de caminhos e profissões (de palavras e esperanças) sempre haverá pequenas insinuações arbitrárias, mínimos grotescos de patética lábia. São os alertas necessários para que, sem perder a felicidade que nos milita por dentro e nos faz militar por fora, estejamos atentos, ainda plenos dentro do nosso corpo operário.

Não são postes mofosos entortando o caminho que desviam da festa os majoritários. São as palavras mal lidas, mal respondidas, mal escutadas e mal contadas. Essas ferinas, absurdas, inúteis, desgarram a veste da alegria. Essas que sempre teremos que revelar, desvendar e mostrar sem pudores inúteis, a um público que quer ler, saber e comunicar outra coisa.

Neste 14 de maio, Elaine querida, insistimos em rebelar-nos, revelar-nos, desvelar-nos para, na trilha da transparência e honestidade, que é o que está na frente e por detrás, seguir…

Com amigos, caminhando…

Por Elaine Tavares.

Eis que faço aniversário nesse dia 14 de maio. Surpreendentemente, essa frágil vida humana com a qual me presentearam Nelson e Helena, percorreu cinquenta e uma voltas de órbita solar. Ultrapassei mais um limiar. Sinto-me pronta para coisas que ainda não sei. Agora, no silêncio da casa quentinha, com os gatos a ronronar em língua felina, me chamou uma passagem do grande livro cristão que conta sobre os 40 dias de Yeshua no deserto. Por infindáveis horas ali ele esteve enfrentando as tentações, preparando-se para o que estava para vir.

Nesses dias lindos de maio, arranchada no meu Campeche, eu me aproximo daquele homem. Parece-me que, como ele, andei por anos a fio vencendo tentações. Mas, agora, ultrapassando o portal dos cinquenta, conforta-me a ideia de que também tenho conseguido vencer os desertos que se apresentam a cada tanto na vida. Tal qual Yeshua, já tive diante de mim um “daemon” a sussurrar sibilinas ideias que me perturbaram a alma.

Conta São Mateus que ao final do recolhimento de Yeshua e do embate com a voz interior (demônio), vieram os anjos e compartilharam com ele a vitória. Assim me sinto. Também vencedora de demônios, e acompanhada. Da janela da sala vejo as corujas da rua iniciando seu voo, os passarinhos buscando um canto onde dormitar, os gatos miando a minha volta, meus homens na azáfama diária, minha hóspede de além-mar pitando um palheiro, o cachorro perseguindo borboletas. Tomando meu café com leite, percebendo essas cenas cotidianas, vejo-os como anjos, tocando-me com suas asas de beleza e esperança.

Não há desertos possíveis se temos amigos. E os meus estão por aí. São poucos, mas mantêm permanentemente suas asas abertas, redes seguras, espaços de aconchego e comunhão. Sei onde estão e sei que posso contar com eles (mesmo quando se zangam)…

Feliz aniversário pra mim, tão cheia de bênçãos…

Na foto do arquivo do jornalista Celso Martins: O autor e Elaine Tavares

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