210 milhões de sonhos na Locomotiva chamada Brasil

Foto: Pexels

Por Elissandro Santana, para Desacato. info.

Somos, aproximadamente, 210 milhões de brasileiros/as, e, consequentemente, 210 milhões de desejos e de anseios na locomotiva chamada Brasil que segue, há mais de quinhentos anos, tentando arrancar alegria e esperança no e do futuro[1].

A esperança, nos últimos anos, a partir dos golpes disfarçados de éticos e de legais, “com o judiciário e com tudo[2]”, amplamente apoiados pela mídia tradicional, se abalou, mas não desvaneceu ou morreu nos corações mais ávidos por um país justo, isonômico e equânime, em que a felicidade sempre foi o cerne e principal projeto de vida. Ela segue, de alguma forma, e, até certo ponto, acesa e vivaz nos corações de muitos/as brasileiros/as, tanto que nestas eleições de outubro de 2018, mesmo diante de tantas fragilidades, desesperanças e insustentabilidades gestadas por estruturas político-jurídico-midiáticas da dependência, seguem acreditando que outro Brasil ainda é viável, ainda que com evidências corroborantes de que os votos dos atores sociais mais frágeis sócio-político-economicamente nem sempre são respeitados no país.

A esperança continua tão ardente na mente e no coração de uma gama gigante de brasileiros/as que, mesmo cônscios/as de que há uma metrificação bem diferente entre o voto das elites e o do sufrágio dos pobres, e, por isso mesmo, balizado como inferior, não pensado, alienado, esse povo (composto pela classe trabalhadora, operária, de chão de fábrica ou até mesmo dos escritórios da ilusão) segue firme na luta, acreditando que a revolução é possível e necessária. A tal métrica hierarquizante de valorização ou não do voto, dependendo do ator social, escancara-se, pornograficamente e por meio de uma maldade banalizada, diria, através de materialidades discursivas nos lócus mais desenvolvidos economicamente no Brasil atual, quando, ao final dos últimos pleitos, podemos citar exemplos a partir das redes sociais e em outras virtualidades do existir, novas territorialidades de disputa e de opressão, terrenos férteis para a conexão entre povos e saberes, mas, também, para covardias, verdadeiras arenas que (se não forem usadas de forma consciente e sustentável) servem para a promoção do ódio contra os nordestinos e/ou outros povos historicamente sofridos com latências do tipo “ajude o Brasil, mate um nordestino afogado”.

Na história recente, e não quero me estender e nem convencer ninguém acerca da teoria do golpe, pois, sigo a linha Saramago de que toda tentativa de convencimento do outro é um ato de violência, bastando, para mim, as expertises de cientistas políticos/as respeitados/as e dos/as cidadãos/ãs comprometidos/as com análises não simplistas, entenda quem quiser e tiver capacidade para tal, presenciamos a violência simbólico-concreta do menoscabo aos votos de mais de 54 milhões de brasileiros/as com o estupro (indultem-me o termo substantivo, pois não encontro outro mais apropriado e não sou dado a eufemismos) da democracia com a destituição da Presidenta Dilma, eleita democraticamente e condenada pela maioria dos Deputados e dos Senadores em nome da hipocrisia em um ato cênico bizarro, depois homologado pelo judiciário.

Em relação à referida hipocrisia dos parlamentares, ela se concretiza no fato de que parcela considerável dos atores que condenaram a primeira mulher a ocupar a cadeira da Presidência da República Federativa do Brasil estava, na época (e está), envolvida em esquemas históricos de corrupção e em outras ilegalidades, mas que, mesmo assim, valendo-se do ódio fomentado pela mídia tradicional irresponsável, a serviço das elites (peço aos de classe média que não tomem as dores com minhas críticas e, principalmente, não se sintam de elites, pois não o são e estão distantes de sê-lo) conseguiu, em nome de crenças, da família, para o sustento do esboço do ódio, confundir e instaurar a desunião de todo o país transformando a nação em um campo de embates e combates político-ideológicos entre mortadelas e coxinhas, ou outros que não se encaixam nem em uma nem em outra dessas nomenclaturas.

Manter viva a esperança é importante, aliás, é imprescindível, mas o/a brasileiro/a precisa sair do campo onírico para a práxis política. Acreditar, por exemplo, que o resultado presidencial das eleições de 2018 é a solução é um tanto quanto ingênuo e imaturo. Nesse sentido, é preciso mencionar que necessitamos, com urgência, de maturidade político-intelectual e de outra arquitetura-design mental que nos possibilite novas rotas e, principalmente, o desenvolvimento da capacidade para novas reflexões e críticas. Diante de saberes e consciências nesta vertente, perceberemos que se não renovarmos as Casas do Legislativo – o Senado e a Câmara dos Deputados – pensando que o/a presidente/a, sozinho/a, mudará os rumos da nação, teremos o de sempre, ou seja, os mesmos ingredientes para o cozimento das pizzas e dos bolos para os banquetes da corrupção com o envolvimento de membros de quase todos os setores e instituições, pois a corrupção parece haver atingido um caráter institucionalizado. Será a partir da sabedoria e da maturidade cidadã que daremos início a uma pequena revolução e, desta forma, não seguiremos fornecendo o capital nutricional para a horrenda festa das pizzas.

Ademais, menciono que nesse trem nação, com uma nacionalidade forjada em dor, a ferro e fogo, em escravidão e em injustiças, na exploração da vida em todos os limites semântico-semiológico-sociológico-econômico-políticos, nos vagões que em pleno século XXI, para os desvalidos e atores sociais frágeis, os explorados, violentados e marginalizados, lembram os navios negreiros do poeta condoreiro que se fundem com as pernas drummondianas, brancas, pretas e amarelas, do Poema de sete faces, para pensar esses seres em movimento que constroem a nação, para, de alguma forma, construir uma intersecção semântica de crítica ao modus operandi histórico da elite colonial brasileira de capitalismo dependente de exploração dos verdadeiros seres que movimentam e constroem – cotidianamente e rotineiramente – o gigante adormecido – negros, negras, indígenas, quilombolas, sem-terra, sem-teto, artistas de rua em busca do pão de cada dia, nordestinos no abandono, pobres nas fronteiras do Sul e do Norte que se tornam vira-latas em relação aos gringos ianques ou eurocêntricos, mas xenófobos no cenário latino-americano com violência contra os venezuelanos e outros povos na diáspora forçada em busca somente do direito à existência e trânsito pelo mundo, moradores de favelas do Rio e de São Paulo, os marginalizados ambientais do Rio Doce e de tantos outros rincões do Brasil, ribeirinhos e povos das florestas do norte, aqueles/as com algum tipo de necessidade física, LGBTS, pobres em geral e pessoas que sofrem algum tipo de estigma, seja pela fé que professam ou por qualquer outra questão ideológica. E como no Poema de sete faces do saudoso poeta mineiro, a esperança, nesta eleição, procura novas direções, não somente à esquerda, ao centro ou à direita, mesmo sendo difícil acreditar nesse processo como revolução, pois um ato revolucionário cabe mais que em uma urna, agora não apenas pernas de três cores se deslocam, mas um infinito de pernas multicores movidas a sonhos, mesmo que em movimentos incertos em direção ao controle da cabine comandada pela elite há séculos, mostrando a estas categorias sociais privilegiadas historicamente ao sabor do caviar de terras do mar além, que pobre também pode e deve decidir qual o ponto final a que o país deve chegar.

Por último, destaco que mesmo diante de todas as intempéries políticas a partir deste sistema hipoteticamente democrático de escolha de nossos representantes pelo voto, ao longo de anos, não passamos de iludidos, de alienados sendo conduzidos pelos interesses da elite econômico-financeira e que este jogo precisa virar a partir da renovação da esperança. Que com a esperança derrotemos os horrores em forma de mito que se avolumam e a esperança atinja a dimensão de uma fênix imortal!

[1] Expressão que tomo emprestado do MAIS.

[2] Expressão que cunho a partir de áudios vazados de Jucá.

Elissandro SantanaElissandro Santana é professor da Faculdade Nossa Senhora de Lourdes e do Evolução Centro Educacional, membro do Grupo de Estudos da Teoria da Dependência – GETD, coordenado pela Professora Doutora Luisa Maria Nunes de Moura e Silva, revisor da Revista Latinoamérica, membro do Conselho Editorial da Revista Letrando, colunista da área socioambiental, latino-americanicista e tradutor do Portal Desacato.

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