Pobre, negro, gago, epilético: Machado de Assis teve quase tudo contra si

Negro, pobre, gago, epilético, ainda assim, o escritor conseguiu se transformar no nome de maior peso na literatura brasileira, sendo o mais completo e complexo dos nossos artistas.

Escritor é autor de obras como “Dom Casmurro”, “Memórias póstumas de Brás Cubas”, entre romances, peças, contos e poemas – Foto: Reprodução Brasil de Fato

Não era o triunfo acachapante que fascinava o escritor Joaquim Maria Machado de Assis. Cético até a espinha, o autor de “Dom Casmurro” soube exercitar como poucos “a arte das conveniências e das meias palavras”. Para muitos dos seus contemporâneos, Machado foi um homem estranho, singular, misterioso e perturbador. Sua figura retraída e tensa tinha alguma coisa de paradoxal, de desconcertante, de aparente contraste entre a pessoa e o artista. Como aquelas “pessoas que parecem nascer errado, em clima diverso ou contrário ao de que precisam” (a frase é do próprio autor, um grande frasista), pessoas que lhes sendo possível sair de um clima adverso para outro que lhes seja mais adequado, parece que foram restituídas a si próprias, ao seu próprio destino, Machado de Assis teve quase tudo contra si, em uma sociedade desigual e cruelmente injusta.

Negro, pobre, gago, epilético, ainda assim, o escritor conseguiu se transformar no nome de maior peso na literatura brasileira, sendo o mais completo e complexo dos nossos artistas. 

Talvez o único de nossa desgarrada literatura, a ter características de verdadeiro clássico universal. Ainda que seja praticamente impossível “extraí-lo” dos nossos antecedentes naturais. Filho dos trópicos, Machado se sentia aborrecido pelo excesso e pela opulência da nossa paisagem. Acabou por fixar o seu objeto de estudo na alma humana: má, infiel, mentirosa, canalha, de uma canalhice atroz, expressão autêntica da natureza humana.

Machado de Assis foi um homem que, segundo Rui Barbosa (que também tinha o dom da palavra), “prosava como o Frei Luiz de Souza e cantava como Luiz de Camões”. Certamente, nenhum outro escritor brasileiro foi tão estudado e por ângulos tão diversos como esse carioca nascido no Morro do Livramento, na Gamboa, Zona Portuária da cidade do Rio de Janeiro, em 21 de junho de 1839.

Foi homem de muitos amigos, mas apenas no sentido da discreta amizade que lhes permitiu: sem dedicação ou intimidade maiores que a dos comentários “não polêmicos”. João Ribeiro, escritor e folclorista sergipano, membro da Academia Brasileira de Letras, acreditava que para Machado de Assis, “os amigos não passavam de necessidades de diálogo, alguma coisa melhor do que falar sozinho”.

Vale registrar que Machado detestava os elogios (“insuportáveis”) de homens “derramados”. Ainda assim, não são poucos os relatos de quem o conheceu pessoalmente enfatizando a sua “quase inverossímil doçura social”, contrastando fortemente com um autor que, como poucos, soube manusear a pena da amargura e da dissimulação.

A grande verdade é que o “bruxo” foi um analista impiedoso, “sádico” até, que soube expor cruelmente um niilismo central nas coisas humanas, além de cultivar cuidadosamente, na vida, formas amáveis e requintadas de sociabilidade, como a indulgência, a discrição e a cortesia.

Soube ser graciosamente pessimista e triste. O entusiasmo, aliás, era para ele algo repugnante. 

Machado de Assis fez bem quase tudo que empreendeu em literatura. Soube, como o italiano Dante Alighieri, atravessar o seu inferno, com um ceticismo cáustico, “suportando com paciência, a dor do próximo” e, com estoicismo, a sua própria dor. Mas, pagou um preço caro por sua “serenidade” impositiva.

Pela enfermidade e pelo pensamento, penetrou no mundo subterrâneo da alma humana, atravessando as sombras frias, encarando o desespero mudo, a solidão severa, a revolta sem ilusão. Soube extrair das páginas de sua própria vida e obra o sorriso melancólico, a tristeza patética e a dúvida pusilânime.

Sem raízes

O poeta Jorge de Lima, autor de Invenção de Orfeu (1952) lembrou em um artigo que quando Machado de Assis morreu, Joaquim Nabuco, seu amigo, escreveu uma reprimenda a José Veríssimo, famoso crítico literário da época:

“Seu artigo no Jornal do Commercio está belo, mas esta frase causou-me arrepio: mulato. Eu pelo menos só vi em Machado de Assis, o grego. Não teria chamado Machado de mulato e penso que nada lhe doeria mais do que essa síntese. Rogo-lhe que tire isso, quando reduzir os artigos a páginas permanentes”.

Para Nabuco, Machado era um cidadão “branco” em vida e “alvíssimo” depois de morto. Essa visão “esquizofrênica”, pode ter sido reforçada pelo próprio autor das Memórias Póstumas de forma conscientemente ou inconscientemente (mais difícil de acreditar).

Enquanto pode, Machado evitou toda e qualquer tentativa de devassa de sua história familiar, inclusive a humildade de sua filiação, que poderiam, talvez, ter lhe proporcionado as melhores páginas da sua literatura. Não deixa de ser um incômodo, ainda, que Machado tenha escrito tão pouco sobre os negros.

O seu passado, Machado de Assis matou no esquecimento. Pouco ou nada falou de Maria Leopoldina, sua mãe, nem de Francisco de Assis, seu pai, ou de sua irmã (morta precocemente, aos 4 anos de idade). Afastou-se por completo de Maria Inês da Silva, sua madrasta, que após a morte de Francisco, terminou de criá-lo. Machado se aristocratizou como um intelectual do seu tempo, um homem amargo, desencantado, fatigado, enjoado do seu século.

Para Jorge de Lima, “o ambiente morno, a calmaria podre, o desinteresse pelo coletivo e pelo universal” que foram o “câncer” do tempo de Machado de Assis, não permitiram que a obra deste “homem excepcional” (uma expressão de José Veríssimo) fosse ainda maior.

Por sua vez, João Ribeiro constatou em Machado de Assis uma insensibilidade “absoluta” pela dor humana, um egoísmo “sem limites”, uma “esquiva vivacidade” nas suas “inconstâncias de espírito”. Todos os heróis machadianos possuem uma “pequenez” de alma, temperada com “pequenas canalhices da desforra”.

Para o escritor José Lins do Rego, Machado foi um “escritor sem raízes” e jamais serviria de modelo se dele quiséssemos tirar um retrato do seu povo, mesmo que fosse da elite brasileira. Segundo Zé Lins, Machado foi um homem de imaginação, mas de uma imaginação aristocrática, sendo por isso, um homem à parte em nossas letras: “uma força viva e imaginativa, num país onde se procura descobrir imaginação na opulência verbal de José de Alencar”.

O poeta carioca Ronald de Carvalho, ao contrário, considerava Machado um escritor sem transbordamentos de imaginação, sendo a sua riqueza “toda interior”, muito mais intensa que extensa, de um “colorido sóbrio e preciso”. Para a escritora Lúcia Miguel Pereira, a vida de Machado de Assis, toda processada sob o signo do espírito modesto, digno e desinteressado, completa a sua obra, fazendo do autor, além de um valor intelectual, um precioso valor moral.

Alfredo Pujol, crítico literário, um dos primeiros a se dedicar ao estudo da obra de Machado de Assis, o chamou de:

alma recolhida e solitária, nutrida das suas tristezas íntimas, envolta em sombras da dúvida. Um poeta da vida interior, enclausurado no seu sonho, estranho à agitação que o rodeava.  

Há também aqueles (“homens derramados”) que lhe chamaram (ainda em vida) de “o chefe da literatura nacional” ou ainda de “clássico verdadeiro”, pela forma, pelo minucioso estudo da língua e pelo escrupuloso cuidado com que se apartava de tudo que lhe parecesse dissonância.

Nascido, há 181 anos, na cidade do Rio de Janeiro, de onde pouco se afastou por toda a vida, ali cresceu em condições precárias, como tantos e tantos brasileiros. Pobre, sem recursos, sem família, Machado de Assis foi um “self-made man”, formou-se por sua própria educação, com a mais vasta leitura, tudo pelo esforço próprio. Sua experiência de vida, certamente, o moldou.

Não por acaso, o mesmo João Ribeiro (aqui, já citado), certa vez, ao concluir que “não há na nossa literatura, páginas mais profundamente imorais e perigosas que as de alguns contos de Machado de Assis”, o comparou, de forma “oblíqua e dissimulada”, ao poeta alemão Heinrich Heine (“o último dos românticos”).

Assim, escreveu João Ribeiro:

“Ludwig Boerne (escritor alemão) disse que Heine era como um ratinho que havia cavado galerias subterrâneas inumeráveis; acossado num ponto, ele escorregava por outro. Era impossível apanhá-lo. Só se a crítica fosse um gato, dizia Boerne. Mas, nesse caso, o sr. Heine é muito mais rato do que poderá ser gato a mais acelerada crítica”. Concluiria, então, Ribeiro: “Não sei que imagem se possa aplicar com mais adequada justeza a Machado de Assis, pelos sorvedouros que cava de subentendidos”.

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