A velha senhora da crueldade: o convite era para servir, não comemorar. Por Claudia Weinman.

Imagem de Adriano Gadini por Pixabay.

Por Claudia Weinman, para Desacato. info.

Fui convidada para o ano novo. A casa onde eu trabalhava de doméstica era de madeira, dois pisos. Difícil de limpar. Um carpete velho cobria o chão da parte de baixo, eu o tirei, com as minhas mãos, um por um dos pedaços grudados na parte bruta. Até pensei que fosse serviço para um pedreiro, com ferramentas adequadas e tudo mais.

Todos os dias a função era certa. Muita roupa de uma família com duas crianças, uma idosa e duas mulheres adultas, isso quando não tinham convidados na casa. A máquina de lavar já me esperava às 7h. Eu ajudava a servir o café e logo encaminhava os afazeres. Às 11h30 o almoço já estava pronto para quando chegassem da rua, da faculdade, do trabalho, do passeio. Eu fritava os bifes no fogão do lado de fora e servia-os quentes, prato a prato, até que estivessem alimentados/as. Mais tarde, quando se levantavam da mesa, era o momento em que eu sentava para comer, sem companhia, sem o calor da comida. Só o gosto da pressa.

Pela tarde, depois de escovar os vários tapetes do corredor, dos quartos, da sala e da cozinha, com a escova de pés, ou de lavar a roupa, era momento de passar a esponja de aço, como de costume semanal, em cada uma das latas de alumínio, que permaneciam vazias em cima da pia, servindo para nada, só para o olhar de quem chegasse.

À noite, quase na hora da aula, eu juntava o que sobrara de mim e me lançava à estrada. E assim, repetiram-se dias até aquele 31 de dezembro que me convidaram para a noite de festa da família. Logo pensei: “porque não fazer algo diferente nessa data? ”. Me arrumei, com uma blusa vermelha. Sabia que teria sobremesa deliciosa, de morangos com creme, eu tinha visto na lista de mercado os ingredientes. A televisão estava ligada quando eu cheguei e logo foram me dizendo: “Pega a travessa, coloca os pratos, serve a taça, arruma o menino, varre a cozinha”. Era ano novo para eles, para mim, apenas uma noite de trabalho não pago. Não me convidaram para a festa. Chamaram-me para servir.

Velha senhora, que me pediu até o último minuto de ano velho, para apertar o botão da TV e aumentar o volume. Ela havia ligado para assistir aos fogos. Velha senhora, filha da desumanidade, reflexo do egoísmo, mãe da crueldade. Velha senhora, que me vêm à reza neste momento, matou minha inocência, despiu minha ingenuidade.

“Não vai ficar para dormir”? – Disse ela.

Ora, ora, alguém precisaria servir o café, não acham?

Saí calada, como quem estava descobrindo a vida. Depois daquela noite, nunca mais me faltaram palavras e os R$ 293,00 que me entregavam todos os meses, hoje lhes faz falta, pois, dignidade não tem como comprar, mas, tem uma coisa que ainda me revolta: ver os nomes de quem tanto explora, na lista dos recebedores do auxílio emergencial em São Miguel do Oeste/SC. Será que vão devolver o auxílio? Como podem ter mentido tanto? Como podem conseguir enquanto tanta gente que precisa não recebe? Será que acabaram com o dinheiro dos eventos? Das viagens para a Europa? Os vinhos caros? Nós não temos que continuar pagando o luxo dessas pessoas, ou temos?

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Claudia Weinman é jornalista, vice-presidenta da Cooperativa Comunicacional Sul. Militante do coletivo da Pastoral da Juventude do Meio Popular (PJMP) e Pastoral da Juventude Rural (PJR).

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