Sai da Frente! E o Decálogo da Outra Masculinidade. Por Flávio Carvalho

Foto: Pixabay

Por Flávio Carvalho, para Desacato.info.

O movimento por outra masculinidade enfrenta quatro importantes desafios: admitir, assumir, aceitar e mudar. Não necessariamente nesta ordem.

Admitir.

Só se muda o que se admite que, sim, existe. Não se muda o que não existe.

Assumir.

O problema, neste caso, é mais interno que externo. Concordamos que o mundo está uma merda. Mas aqui queremos falar de ti. Tenha calma que também vamos sair daqui. Nós somente estamos tentando inaugurar uma nova forma de caminhar.

Aceitar.

Todo problema oferece uma oportunidade. Aceitá-lo vai doer. Mas amanhã te fará melhor.

Mudar.

Se for pra continuar como está (ou estava), melhor buscar outro grupo. Como queremos mudar o mundo, precisamos de gente nova. Por querer mudar a gente, precisamos de um novo mundo que nos possibilite sermos nós mesmas, com plenitude.

O movimento mundial pela assunção, desconstrução e construção de Outras Masculinidades propõe uma mudança radical da visão de mundo (ou de perspectivas), antes de acompanhar – atenção para este verbo! – os movimentos feministas que acreditamos que estão mudando o mundo para melhor. Daquela forma como dissemos que queremos e que, sendo verdade, se assim o for, será.

Anos passaram desde que o antigo conceito de masculinidade assumiu o desafio de, pelo menos, falar de si. Principalmente por determinadas circunstâncias cada vez mais presentes nos nossos encontros, absolutamente dotados de intencionalidade:

Homens com medo; questionando-se; aproveitando-se; ajudando-se a ajudar-se (e abrindo-se às possibilidades de um mundo melhor para si, no futuro e no presente).

Porém, lamento informar que não estamos nesse debate por nós mesmos. A centralidade é outra e queremos deixar bem clara: as diversas faces dos movimentos feministas pelo mundo são algumas das melhores coisas que aconteceram recentemente nas nossas vidas. Sobretudo para nós que já passamos por diversas experiências… Até chegar a essa conclusão: assim, daquele jeito, não vai dar. E aqui nos dividimos em dois blocos de pessoas que se complementam. Os convencidos e os que querem saber por que.

Se tu estás esperando uma receita de bolo, com dez ingredientes, também te equivocas. Mas acreditamos que é importante pontuar, pra começar, pelo menos dez questões.

  1. Eu não sou feminista”. Aqui ninguém se diz feminista, apesar da imensa vontade que nos move. Nossa utopia. A montanha mágica. Valorizar como nunca o “ainda não”. Nossa vontade de chegar lá é mais importante que efetivamente chegar. Quando o “quero ser” significa mais que o “(Já) sou”.
  2. Homem com H”. Não somos um grupo de homens. Somos um amontoado de gente querendo falar até mesmo do que é ser homem. Principalmente. Lembre-se: pra começar. Queremos deixar um mundo binário para trás. Muito difícil? Não importa. Queremos!
  3. Clube do Bolinha”. Nem da Luluzinha. São personagens antigos. Viva a dialética. Hoje pode vir mulher, ou “o que é isso?”. Amanhã, quem sabe, não. Ou seja, que tudo pode.
  4. Como pode querer que a mulher vá viver sem mentir”?”. O ponto anterior não é verdade. Nem tudo pode. Há coisas inadmissíveis. Quais? Que tal falarmos sobre elas, antes de começar a botar os monstros pra fora?
  5. Sente-se e não fique à vontade”. Pra bem mudar, alguma coisa tem que mudar. Você se sente preparado? Melhor responder que não.
  6. O corpo fala”. E também mente muito. Mentir pra si mesmo é gastar seu precioso tempo. O cérebro, dentro do marco meramente mental, quando manda em todo o corpo, o escraviza. Liberdade. Vamos juntos sair daqui. Pela emoção.
  7. Fazer amor e não a guerra dos sexos”. Pela boca vive o peixe. A linguagem nos denuncia. E também pode nos salvar. Falando de sexos, e dos sexos dos anjos, e dos demônios, por exemplo. De Eva e Adão, não; por favor.
  8. O Feminismo (agora!) cai bem”. Nós sabemos que é possível denunciar privilégios, mantendo privilégios. Porém, não vamos ficar de olho em você. Preferimos distribuir espelhos.
  9. Deixa eu te dizer uma coisa”. É hora de calar. E de escutar. Ativamente.
  10. Sai da frente”. E olhe bem ao seu redor. Como se fosse a primeira vez. Porque é.

Percebeu, então, que não mencionamos (ainda) aqueles temas de sempre? O fizemos de propósito, pois temos certeza que aparecerão. Depende de ti. Por isso, te esperamos.

Vamos lá?

Barcelona, maio e junho de 2020.

@1flaviocarvalho, sociólogo, participante da FIBRA e do Coletivo Brasil Catalunya

 

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