Documentos desclassificados mostram preferência de Israel pela ditadura militar no Brasil

Netanyahu não reinventou a roda com seu apoio a Bolsonaro. Essa é uma história que se repete. O Estado de Israel não aprendeu nenhuma lição da desgraça de ter relações com a ditadura militar do Brasil, que torturou e desapareceu milhares de cidadãos e cidadãs.

Tradução: Tali Feld Gleiser, para Desacato.info.

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O relacionamento entre Netanyahu e Bolsonaro vai além de um eventual oportunismo e mostra um medo histórico dos governos israelenses à solidariedade da esquerda brasileira ao povo palestino. Documentos dos Arquivos do Estado de Israel do ministério das Relações Exteriores revelaram faz algumas semanas que Lula e o PT foram classificados como inimigos do Estado de Israel há 35 anos.

Esse artigo se baseia em alguns documentos dos milhares que se encontram em dossiês que foram desclassificados ao meu pedido nas últimas semanas. Esses telegramas nunca tinham sido publicados.

Os anos de 1981 a 1985 foram anos críticos no Brasil com uma transição da ditadura militar, que cometeu crimes contra a humanidade, para um regime democrático. Documentos israelenses mostram claramente que Israel preferia a continuação do regime militar e seus métodos de opressão devido ao problema Israel/Palestina.

Em 1981, o último ditador, João Bastista Figueiredo, congelou as negociações com o Congresso brasileiro e decidiu continuar o governo militar. Israel apoiou a jogada por causa da postura do PT em relação à Palestina. “Da perspectiva de Israel e da perspectiva da comunidade judaica, o desenvolvimento é positivo”, Yitzhak Nissim, consultor da embaixada israelense em Brasilia, escreveu para o ministério israelense das Relações Exteriores em Jerusalém numa carta com data de 19 de dezembro de 1981. “Aumentaram muito as chances de que o partido governante mantenha a maioria nas eleições de 1982 e da sua continuidade e também, após 1984, o presidente será um militar. Por enquanto, se reduziram as chances do PT [Partido dos Trabalhadores], que se identifica completamente com a OLP, de incrementar seriamente a sua força, e, também diminuíram as possibilidades de um ressurgimento dos partidos de direita antissemitas. Em geral, é possível dizer que é mais fácil que os árabes ganhem apoio dos políticos civis do que dos militares com os que é mais difícil se comunicar e são muitos menos corruptos”.

Num telegrama enviado ao ministério em 12 de novembro de 1982, Nissim advertia que o líder do PT tinha elogiado a política do ministério das Relações Exteriores do Brasil de apoio ao povo palestino.

Lula aparece por primeira vez duas semanas depois. Num telegrama de 25 de novembro, Nissim informava sobre o resultado das eleições parlamentares e para governadores e expressou a sua satisfação sobre o “fracasso do partido de esquerda PT, principalmente na sua base em São Paulo, sob a liderança de um líder dos trabalhadores e trabalhadoras conhecido como Lula, quem explícita e fortemente manifestou seu apoio à OLP, dentro de uma postura visivelmente anti-Israel.”

Num telegrama de 15 de dezembro de 1982, Nissim escreveu que o PT tinha condenado a operação da PF e a detenção de membros do Partido Comunista em São Paulo. Nissim argumentou que a rápida ação da polícia evidenciava “sua vontade de lutar contra o movimento comunista e contra qualquer movimento que ameace o regime.”

No início de abril de 1983, houve manifestações em São Paulo por causa da crise econômica e a lentidão da transição à democracia. Israel seguiu a agitação social e tentou entender a dimensão do lugar que a esquerda brasileira tinha em tudo isso, e tentou prever quem venceria: os militares ou as forças civis.

Num telegrama de 8 de abril de 1983, Ephraim Eldar, cônsul israelense em São Paulo, afirmou que esses eventos provavam que era errado enfraquecer o poder da polícia política, que estava entre os principais grupos responsáveis pela repressão e a tortura na cidade: “Esses eventos mostram a ingenuidade política e o erro fatal cometido pelo governo do estado de neutralizar/eliminar o Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) e a falta de uso dos seus arquivos onde tinha detalhes essenciais…”

(…)

A liderança de Lula preocupava os israelenses. Num telegrama de 11 de novembro de 1983, Eldar escreveu sobre os boatos de que os responsáveis pelos distúrbios eram elementos militares que queriam provar que o estado ainda não estava pronto para um governo civil. Mas Eldar duvidava disso. “Não é impossível que a força mais importante seja o partido de esquerda PT encabeçado por seu carismático líder Luiz Inácio Lula da Silva, quem controla dezenas de milhares de trabalhadores nas maiores fábricas dos subúrbios da cidade e favelas. Além dele – mesmo sem cooperação total – o processo foi empreendido pelo Partido Comunista.”

Eldar voltou a reconhecer a deterioração da situação econômica no Brasil. Mas disse que “esse fenômeno é explorado pelos partidos e especialmente pela centro-esquerda, para quem o cidadão explorado através do desemprego e falta de direitos, é o melhor lutador e nem precisa de muita ‘propaganda’ para expressar, de um jeito ou de outro, sua raiva e descontentamento.”

Num telegrama de 6 de dezembro de 1984, Rahamim Timor, o embaixador israelense em Brasília, escreveu que “o partido identificado como partido de esquerda é o PT, cujos membros são Lula, o líder sindical, que está em contato com representantes da OLP, e Ayrton Soares, que trabalha em cooperação com as embaixadas árabes em Brasília como colaborador da OLP e em atividades anti-israelenses. A mãe de Soares é árabe.”

Após o fim da ditadura militar no Brasil em 1985, o Estado de Israel continuou preocupado com a legalização e fortalecimento da esquerda e a democratização do Brasil e sua vontade era de que os seus amigos militares continuassem no poder.

Num telegrama duas semanas depois da posse do Sarney, o embaixador israelense Timor escreveu que:

“O primeiro passo para a legalização (dos partidos comunistas) foi a decisão de cancelar a proibição do governo da existência de uma organização que unisse as organizações profissionais (…) Em todo caso, a esquerda já consolidou seu trabalho de base. Nomeações, a legalização de organizações e demonstrações de força nas universidades em relação às nomeações aumentam as chances de que a legalização se materialize.”

Timor escreveu que esse desenrolar da situação contrariava os interesses israelenses devido à força do lobby árabe no Brasil:

“Pra nós, isso não é para nada positivo. Temos alguns amigos entre os socialistas, mas com certeza nenhum entre os comunistas. Aqui, a esquerda – com a cooperação do lobby árabe, que hoje é vulnerável à pressão de elementos extremistas e as embaixadas árabes em Brasília e a luta para o reconhecimento formal da OLP –, tememos que agora a pressão aumente. Os primeiros indicativos do ‘aparecimento’ dos partidos comunistas no espaço público foram vistos durante o dia da posse do presidente. Grupos com bandeiras vermelhas gritaram “assassinos, “terroristas”, viva a OLP, etc.) para a delegação israelense que se dirigia à posse.”

Segundo o embaixador Timor, as dificuldades de Israel não se originavam só na autorização das atividades dos partidos comunistas no espaço público, mas também da própria mudança democrática:

“Em todo caso, a abertura do espaço público e as universidades não faz com que nosso trabalho seja mais fácil, especialmente por causa das limitações de funcionários e orçamento. A frente principal que temos que confrontar hoje do ponto de vista da informação é o Congresso e, depois, a imprensa e universidades, e tentamos nos preparar à altura apesar de não termos as ferramentas adequadas.”

O processo democrático alarmava os funcionários israelenses, que preferiam o governo militar.

Num telegrama de 16 de maio de 1985, o embaixador Timor escreveu que as regras e regulamentações que regiam a criação de partidos políticos foram simplificadas e suavizadas, trinta milhões de analfabetos ganharam o direito ao voto. Apesar dessas ações positivas, o embaixador Timor acrescentou que elas empoderavam o Lula, então candidato à presidência. Ele lamentou que as organizações dos trabalhadores, que tinham voltado a serem legalizadas na transição para o regime democrático, “estão guiadas por partidos comunistas e de esquerda como o PT, e podem agitar os trabalhadores e trabalhadoras e fazer longas greves na indústria metalúrgica.”

Ele continuou:

“As fábricas de carros estão fechadas faz semanas, o que parou a produção e a exportação de carros e até paralisou algumas montadoras (que produzem carros lagarta) que também dependem de autopeças produzidas pelas fábricas de carros. Houve mais greves no transporte público, no ministério das Comunicações, dos trabalhadores de empresas aéreas, entre outros. Nos próximos dias esperamos greves no comércio, serviços (água e eletricidade) e até uma greve dos médicos.”

O embaixador Timor concluiu seu telegrama mencionando a grande dificuldade de prever para onde conduziriam esses eventos no Brasil:

“Uma coisa é certa: a estabilidade e monotonia que caracterizaram os governos militares durante 20 anos nunca retornará ao Brasil.”

Num telegrama de 14 de novembro de 1985, Timor escreveu que:

“O exército é o único que preserva a estabilidade e continuidade e, apesar de evitar intervir nos processos recentes, sua presença silenciosa com certeza se sente na atual constelação política (…) A esquerda se está fortalecendo dentro e fora do Congresso, e esperamos o fortalecimento simultâneo do Congresso, especialmente depois da aplicação da nova Constituição, e o fortalecimento do poder da esquerda dentro do Congresso (…), a mídia e vários grupos de poder como sindicatos, organizações estudantis, etc. Terão muito mias impacto na opinião pública e, infelizmente, aqui também, nossos oponentes excedem em grande número os nossos apoiadores, e temos que nos preparar à altura.”

O embaixador Timor concluiu com a questão: “Como acabará tudo? Como acabará o rápido desenrolar dos eventos: Com outro golpe de Estado, com o avanço da esquerda ou com as forças democráticas moderadas permanecendo no poder, só o tempo dirá.”

Num telegrama de 20 de novembro de 1985, o embaixador Timor informou que o PT tinha vencido as eleições em Fortaleza, a capital do estado do Ceará, e até teve uma grande conquista na cidade de São Paolo: “à luz desses eventos é possível determinar que o PT é a “zebra” dessas eleições. O partido provou que, embora estivesse no extremo do mapa político, tem uma tração poderosa que é forte não só nos grandes centros urbanos (onde a presença de um partido de esquerda é mais natural), mas também nas cidades menores e menos ‘proletárias’ e que tem uma presença ampla no campo.”

Num telegrama de 12 de dezembro de 1985, Timor escreveu que “não tem dúvida de que a esquerda está se fortalecendo no Brasil e é particularmente notável considerando que não pode se expressar durante 21 anos de regime militar. A esquerda age como um avião a jato que esteve preso num ambiente lacrado e agora se encontra em plena ebulição, mas não dá para estimar que a pressão da esquerda, que deixou para lá a direita e o centro, reduzirá seu poder e que as forças políticas finalmente se equilibrarão.”

Timor informou que lhe falaram em conversações privadas que os militares não queriam retornar para o poder nesse momento, especialmente na área socioeconômica, em que 21 anos de governo militar causaram uma grave crise. Apesar de que o exército às vezes conseguia sinalizar para a esquerda não ir tão longe. O embaixador acrescentou: “Obviamente estamos cientes da importância dos militares e sua força, e incentivamos as relações com os oficiais superiores.”

Netanyahu não reinventou a roda com seu apoio a Bolsonaro. Essa é uma história que se repete. O Estado de Israel não aprendeu nenhuma lição da desgraça de ter relações com a ditadura militar do Brasil, que torturou e desapareceu milhares de cidadãos e cidadãs.

Hoje, como no passado, um regime antidemocrático e um governante fascista parecem ser melhores opções para os interesses do governo israelense, através do silenciamento ou eliminação dos críticos à ocupação dos territórios palestinos.

 

A opinião do/a autor/a não necessariamente representa a opinião de Desacato.info.

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