Senadores desconfiam da versão da Polícia sobre morte de Malhães

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Por Najla Passos. A Comissão de Direitos Humanos (CDH) decidiu, na última terça-feira (29/04), acompanhar de perto as investigações sobre a morte do coronel reformado do Exército Paulo Malhães, o único agente da repressão a admitir à Comissão da Verdade que as práticas de tortura e ocultamento de cadáver eram política de Estado da ditadura.

O objetivo é averiguar a veracidade dos resultados preliminares das investigações conduzidas pela Polícia Civil do Rio de Janeiro, que indicam que o militar morreu de causa natural, durante roubo da chácara em que vivia, na zona rural de Nova Iguaçu, na última sexta-feira (25/04), exatos 30 dias após ele confessar sua atuação em centros clandestinos de tortura e no desaparecimento dos corpos de presos políticos assassinados.

“Nós vamos estar atentos para assegurar que a investigação seja feita da forma mais séria possível. A tese de latrocínio adotada pela Polícia não nos convence, porque é uma linha de investigação possível, mas não é a única. E nós queremos que todas sejam consideradas, inclusive a de queima de arquivo”, afirmou a Presidente da CDH, senadora Ana Rita (PT-ES).

“Tudo indica que foi queima de arquivo, porque o Malhães foi o primeiro e o único agente da ditadura a falar abertamente sobre os crimes que praticou. Ele era peça chave para a condução dos trabalhos da Comissão da Verdade. Então, não dá para aceitar essa tese de latrocínio pura e simplesmente”, disse à Carta Maior o presidente da Subcomissão de Verdade, Memória e Justiça, senador João Capiberibe (PCdoB-AP).

Em reunião na última terça-feira (29/04), os senadores membros da CDH aprovaram uma diligência externa ao Rio de Janeiro para ouvir os responsáveis pelas investigações. De acordo com Capiberibe, a data da viagem ainda não está confirmada, mas deve ocorrer ainda no início da semana que vem. Além dele, o senador Randolfe Rodrigues (PSOL-AP) já confirmou participação.

Os senadores também solicitaram uma reunião imediata com o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, para cobrar a atuação da Polícia Federal no caso. De acordo com a senadora Ana Rita, o encontro foi longo e produtivo. “O ministro telefonou para o governo do Rio em exercício, o Pezão, e acertou com ele que a Polícia Feral vai acompanhar as investigações. O Ministério da Justiça também não está convencido da tese de latrocínio”, relatou ela.

Imune às críticas, o delegado Pedro Medina, sustenta que as investigações se baseiam em provas materiais, e não apenas no perfil da vítima. “Na análise da cena do crime não há nenhum elemento que possa determinar essa queima de arquivo”, afirmou à Carta Maior. Segundo ele, outras hipóteses também foram consideradas nas investigações, mas não encontraram respaldo técnico. “Não estamos em busca de não de uma solução fácil. Nós queremos a verdade”, ressaltou.

Corrobora com sua versão o depoimento do caseiro da chácara, Rogério Pires Teles, que confirmou a participação no crime, ao lado de dois irmãos e uma terceira pessoa ainda não identificada, com o único intuito de se apoderar do dinheiro, das joias e das armas que o coronel mantinha na propriedade. “E eu quero ressaltar que não foi uma confissão que levou a gente ao caseiro, mas uma série de fatos que, com a confissão dele no final, fecharam o quebra cabeças”, acrescentou o delegado.

Há elementos, porém, que justificam apreensão dos senadores com a convicção apressada de Medina. Embora a imprensa tenha divulgado que Malhães morrera de infarto, a Polícia Civil ainda não recebeu o laudo oficial do Instituto Médico Legal (IML) que determinará não só a causa da morte, mas também especificará como ela ocorreu de fato.

Além disso, o delegado não tem como confrontar o depoimento do caseiro com os dos demais envolvidos, que se encontram foragidos. E, ainda, não tem acesso ao conteúdo dos arquivos apreendidos no local do crime pelo Ministério Público e Polícia Federal, incluindo processos relativos ao período da ditadura. “Na delegacia, não apreendemos nada. O nosso trabalho é investigar apenas o homicídio”, rebate ele.

Foto: Reprodução/Carta Maior.

Fonte: Carta Maior.

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