Eli Heil e sua arte libertadora de seres

Por Paula Guimarães.

Há muitos seres ainda à espera de liberdade dentro de Eli Heil. “E liberdade é tudo”, garante ela, aos 85 anos. Com mais de 400 obras tombadas, a artista plástica que se diz “grávida de monstrinhos” ainda tem inspiração para seus vômitos criativos ou partos, “mais coloridos que doloridos”, como explica, e segue dona de uma memória ímpar. Eli nos recebe em seu Museu Mundo Ovo, em Florianópolis, com toda simpatia, enquanto passa espanador nas obras do jardim.

Na entrada do museu, a poucos metros da rodovia SC 401, o portal vermelho com formatos de corações acena para a autenticidade do espaço onde mora e abriga seu acervo de quase duas mil obras. A exposição começa no jardim com o conjunto de obras “Paraíso” e segue com o monumento, símbolo do seu mundo: o pássaro gigante de cinco metros, com um coração pendurado na boca, “nascendo” de um ovo. “Quando olho, acho impossível acreditar que fiz isso tudo”, conta.

“Nunca tinha visto um quadro de pintura na minha vida. Fiquei doente por oito anos, sendo cinco de cama. Até que meu irmão trouxe um quadro de um artista famoso, eu olhei e disse ‘mas isso eu também faço’. Falei sem pretensão alguma, foram palavras do momento. Eu acho que já tinha aquele vulcão dentro de mim. Espetaram qualquer coisa e explodiu tudo”, lembra-se.

No dia seguinte, Eli, com 33 anos, deu vida à sua primeira criação, a qual trazia um ovo, uma galinha e a frase “A rainha do galinheiro pôs um ovo gigante, vou fazer uma boa fritada”. A partir daí, a catarinense não parou mais. Não havia limites, nem mesmo econômicos: quando não podia comprar tinta, escrevia poesias. “Eu não parava de pensar. A cada dia eu achava que não iria sobreviver”, revela.

Criatividade

Mas, não bastava gerá-los, era preciso que cada ser fosse diferente do outro. Nas primeiras experiências trocou o tradicional pincel por uma vareta de joguinhos. Em suas experimentações, inventou mais de 200 técnicas. Tampa de vaso sanitário, canudo de plástico, fios de cobre, tubos de tinta, canos de PVC, papelão, corda, concreto, rolo de papel higiênico, garrafas plásticas, salto de sapato, tudo virava matéria-prima em suas mãos. A originalidade, porém, é uma característica que Eli traz desde a infância. “Sou muito autêntica, desde pequena tudo tinha que ser diferente. Eu mesma criava os vestidos das minhas bonecas. Depois com os meus filhos, eu pintava as calças deles. Causei espanto quando levei calças e cortinas pintadas para o Museu da Arte Moderna de São Paulo”.

Loucura pelo sublime

Nos símbolos que caracterizam sua obra – ovo, óvulo, ovário, animais, coração e cérebro – Eli expõe sua forte religiosidade, exalta a capacidade criadora da natureza, e questiona a superioridade da espécie humana. “Vai chegar um dia em que todos vão querer ser animais”, escreveu em seu livro.

Certa vez, Eli disse “eu sou uma maternidade artística. Tudo o que eu faço é como se fossem meus filhos.” O Mundo Ovo é esse lugar de concepção, onde a vida não cessa. “Quem sabe esses seres vêm pra mostrar que uma pessoa humilde, que nunca aprendeu pintura, também tem valor para fazer uma coisa dessas”.

A “animadora de seres” faz arte com as palavras para explicar o dom e sua “loucura” carregada de certeza. “É uma agonia. Eu não explico isso. Dizem ‘que mulher louca’. Eu tenho loucura pelas coisas sublimes da vida. Mas também sou tão certa, que a loucura corre atrás do certo, não pega nunca”.

A arte e seu valor

Depois 53 anos de carreira e a exposição comemorativa no Museu de Arte de Santa Catarina (MASC) por quatro meses, Eli sente-se realizada e valorizada como artista. “Saber que as pessoas dão valor é o que leva a gente mais adiante. Só de olhar eu já sei quem dá valor”, revela.

Recentemente, prestigiou o lançamento do videoclipe Eli – grito de esperança, gravado durante a exposição no Masc, cuja música traz a poesia do quadro “Mensagem das Mãos”. “A canção encaixou direitinho. É justamente aquilo que eu faço com outras canções. Lembrou-me dos tempos que eu cantava para os visitantes do museu”, avalia.

A artista conta com a ajuda dos dois filhos, Teresa e João Pedro, para cuidar do museu. As mesmas mãos que fazem brotar esses seres singulares também limpam o banheiro, varrem o quintal e tiram o pó das obras. “A gente não dá conta de limpar todo dia. É uma luta. Teve um tempo em que eu fazia quase tudo sozinha. Visitantes de outros países ficam chateados com a falta de entendimento do governo. Falam que esse poderia ser o maior museu do mundo”, afirma.

Para construir o Mundo Ovo, em 1987, quando completou 25 anos de carreira, Eli teve que abrir mão de parte de seu acervo e colocá-lo à venda. Ainda se lembra com tristeza da destruição de Adão e Eva – estátuas de três metros de altura que simbolizavam a criação do seu mundo – pelo governo do estado, para a duplicação da rodovia. O cercado vizinho continua intacto – no mesmo limite que tinha o museu antes da obra.

 Eli não se deu por vencida e construiu, no jardim, o cemitério para Adão e Eva que, desfigurados e rodeados de pedras vermelhas, lembram a “matança”. Ainda inspirada pela indignação, criou a obra Santa Ceia, busto que traz a imagem de Jesus de um lado e de um animal do outro, envolto por animais que se alimentam desse ser.

 

Ela já expôs em várias partes do país e do mundo. Na França, onde tem sala permanente, foram mais de 40 participações. O estilo peculiar rendeu variadas classificações ao logo de sua trajetória, como primitiva, expressionista, primitiva expressionista, surrealista, arte pop, incomum e imaginária. É considerada por alguns críticos como a maior artista dos séculos XX e XXI. “Fui comparada a Van Gogh e outros, esses artistas famosos”, diverte-se. “Pra mim, minha arte não tem definição”.

A visita ao Mundo Ovo pode ser agendada pelo telefone (48) 3235-1076 ou e-mail: [email protected] Tem taxa de R$ 10 durante a semana e R$ 15 aos fins de semana e feriados.

Ela já expôs em várias partes do país e do mundo. Na França, onde tem sala permanente, foram mais de 40 participações. O estilo peculiar rendeu variadas classificações ao logo de sua trajetória, como primitiva, expressionista, primitiva expressionista, surrealista, arte pop, incomum e imaginária. É considerada por alguns críticos como a maior artista dos séculos XX e XXI. “Fui comparada a Van Gogh e outros, esses artistas famosos”, diverte-se. “Pra mim, minha arte não tem definição”.

A visita ao Mundo Ovo pode ser agendada pelo telefone (48) 3235-1076 ou e-mail: [email protected] Tem taxa de R$ 10 durante a semana e R$ 15 aos fins de semana e feriados.

Fotos: Kélen Oliveira

Fonte: Enredo Conteúdo Criativo 

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