‘Mentimos’’ ou: sobre a efemeridade das mídias e suas ferramentas instantâneas

Publicado em: 27/08/2011 às 18:03
‘Mentimos’’ ou: sobre a efemeridade das mídias e suas ferramentas instantâneas

Por Ana Luiza Lucena.

A teoria do espelho diz que as mídias são como são porque a realidade assim o determina. A realidade quem conta somos nós, jornalistas. A teoria do espelho é a bússola norteadora dos manuais de redação e das regras de conduta dos jornais (escrever a matéria de forma impessoal, ouvir os dois lados da questão) era a garantia de se ter um retrato fiel da realidade.

Sabemos que a teoria do espelho não existe mais. Não dá para viver no mundo com os dois lados da moeda. Nós jornalistas precisamos saber jogar as duas moedas. Na teoria do espelho, o bom jornalista é um observador desinteressado, que relata com honestidade e equilíbrio tudo que vê, cauteloso para não emitir opiniões pessoais.

O mito da caverna narrado por Platão no livro ‘’A República’’, é talvez, uma das mais poderosas metáforas concebidas pela filosofia. Em qualquer tempo, para expor a situação geral em que se encontra a humanidade. Para o filósofo, todos nós estamos condenados a ver sombras a nossa frente e tomá-las como verdadeiras. A relação da teoria do espelho com o mito da caverna é a que não há interpretação real para os fatos. Ela só compreende as imagens e o povo faz dela o que quiser. E o público procede como estima.

Abonei o jornalismo, acreditava que a profissão seria um dos caminhos para mudar o mundo (talvez radicalmente). Uma visão extremamente ingênua, mas que um dia se passa pela cabeça dos intitulados, utópicos. E ainda mais, nasci no final dos anos 80 e cresci com uma juventude que julga revolução como um passado remoto, apesar de as injustiças sociais – de Norte – a Sul, terem se agravado.

É inquietante perceber que as notícias do dia, em tantos casos, não correspondem ao que é visto ao vivo. Até então os jornalistas não notaram que notícias reais não sobrevivem a cerca de palácios ou em discursos oficiais e sim nas ruas ou sucede primordialmente nas ruas.

Alguns jornalistas ainda não descobriram que o lado mais fascinante da história não acontece nos palácios ou nos discursos oficiais. Acontece, principalmente nas ruas. Ao cobrir um conflito armado, por exemplo, o ideal seria estar em todos os fronts, ouvindo todas as versões. Alguns jornalistas escolhem apaixonadamente um único font e ali permanecem grudados como marisco na rocha. É o front do poder, o mais cômodo e mais seguro. Contextualizar um fato ou narrar uma versão. Para que isso funcione, em uma democracia, é preciso fabricar consenso, construir idéias e valores que sejam assimilados, aceitos e seguidos. E o consenso é criado por meio de propaganda que, na maior parte das vezes, não se apresenta como tal, mas como informações, por meio do jornalismo.

O problema de fundo, como constatou Fausto Wolff, é que: ‘’Os novos jornalistas passaram a ver a realidade sob sua perspectiva burguesa de classe média. O povo deixou de ser importante o ator principal, para torna-se figura presunto. Em compensação, o jornalista deixou de ser o  herói marginal para torna-se uma espécie de poodle de divã uma espécie de office-boy do poder….’’. Ou seja, chegamos a tal ponto que boa parte dos jornalistas são cúmplices do poder sem ter consciência porque está nesse ‘’rebanho tolo’’.

A tecnologia tem como efeito a amputação do tempo de nossa experiência

Em nossa cultura digital, a velocidade é proporcional ao encurtamento do tempo que era experimentado antes nas trocas orais. A humana necessidade de conversação não é nada diante da administração discursiva da qual fazemos parte. O tempo da oralidade é justamente o que, podendo ser cortado sob a alegação de improdutividade, não fará falta na economia política da fala. Ao reduzir a potência da narrativa a 140 toques (considerando espaços entre palavras), o que o Twitter providencia é a imersão em um suposto tempo presente.

Responder hoje à pergunta “o que está acontecendo?” não diz respeito a complexidade dos pensamentos humanos nem a diversidade de interpretações do mundo. A ação é reduzida à narrativa protocolada em 140 caracteres. É, portanto, transformada em slogan. Se a fala exprimida é o centro de toda relação e o que lhe dá base política, não fica difícil imaginar que o Twitter privilegia algo como uma antipolítica.

No entanto, posso dizer que um slogan é política? Seria uma prostituição da ação? O Twitter mostra assim sua alma publicitária diante da qual o diálogo como forma básica da relação verdadeiramente política é impossível.

Esperança de uma vida boa e justa não cabe no Twitter, “sepultura medida das idéias”, ao mesmo tempo que era para ser uma ferramenta de ramificação de idéias. Porém, já imaginou ramificar as idéias em 140 caracteres? Você automaticamente censura a sua mente a pensar algo a mais do que isso. Desde que as redes sociais estão entre nós, precisamos mais do que nunca ficar atentos ao sentido das nossas relações. Sentido que é alterado pelos meios a partir dos quais são promovidas essas mesmas relações.

O sarapatel de tudo

O grande problema de nossa época é o de preservar a independência e a identidade das pessoas, sua substancialidade, contra o super-poder da sociedade, cristalizado nos agentes do Estado. Daí o caráter saneador da luta pela cidadania. No caso do Brasil, a hierarquia extremamente desigualitária desembocou na Ditadura Militar. A mídia, legitimadora da economia de Mercado, tornou-se fonte da retórica do embelezamento da desigualdade e da dependência. Com sua aparência multívoca,escamoteia a realidade e oferece um mundo ilusório em cores. Tornou-se uma técnica da exclusão cognoscitiva diante do processo de exploração. Instaura a cegueira conformist, fazendo da consciência ingênua ancila da consciência contábil, fazendo de conta que são todos iguais na barbaridade desigualdade da sociedade brasileira, com um objetivo único de se causar impacto e vender propagandas, nos ‘’informando’’, como tuíteres, instantâneos e sem nenhuma preocupação em nos oferecer uma notícia com os temperos certos para que o nossa saúde mental, evolua com a veracidade e daí, meu caro, produziremos revoluções; o que as produz são as informações dignas e verdadeiras, assim acordarão a consciência ingênua e adicionarão condições social-políticas adequadas para tanto.

 Imagem: Mafalda, de Quino.

2 Comentários para "‘Mentimos’’ ou: sobre a efemeridade das mídias e suas ferramentas instantâneas"

  1. Pingback: ‘Mentimos’’ ou: sobre a efemeridade das mídias e suas ferramentas instantâneas « PONTO DE PAUTA para o livre debate.

  2. vania   30/08/2011 at 10:06

    É dificil enganar quando se ouve o pulsar do coração e olha-se olho no olho… quando se está! O não ouvir, sentir, e ver, possibilita caminhos diversos e emoldurados a cada necessidade.

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